Um estádio de futebol é um organismo vivo. O entorno do local, os corredores, o campo e as arquibancadas estão conectados para que o espetáculo ocorra da melhor forma. Porém, sem a torcida, o elo que faz do jogo um espetáculo singular perde a força. Neste domingo (20), o último Clássico-Rei do ano, às 20h30, novamente não terá a mesma vibração na Arena Castelão. A sintonia construída pelo amor das torcidas de Ceará e Fortaleza será representada mais uma vez pelos mascotes.No 1º Clássico de 2020, o empate em 1 a 1 prevaleceu pela fase de grupos da Copa do Nordeste, no começo de fevereiro.
Foi o último duelo entre as principais forças do futebol cearense com o apoio das arquibancadas. Desde então, foram cinco confrontos: um pela competição regional (Fortaleza 0 x 1 Ceará), um pela Série A do Brasileirão (Ceará 1 x 0 Fortaleza) e três no Campeonato Cearense (Ceará 1 x 2 Fortaleza, Ceará 1 x 2 Fortaleza e Fortaleza 1 x 0 Ceará).Com os números de casos de Covid-19 aumentando no Estado e a vacina ainda distante, são poucos os que têm acesso ao estádio durante a pandemia. Dentre eles, três se destacam não pelo privilégio, mas pela responsabilidade de representar milhares de apaixonados que antes pulavam nas arquibancadas do Castelão.
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Vozes solitárias
O Vozão, mascote do Alvinegro de Porangabuçu, e Juba e Stella, mascotes do Tricolor do Pici, carregam o peso de massas que não podem cobrar, cantar e comemorar com seu time. Eles são os únicos mascotes, junto ao Saci, do Internacional, que conseguiram permissão da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para participar do espetáculo presencialmente na Série A. Em entrevista exclusiva ao Sistema Verdes Mares, os intérpretes de cada personagem conversaram sobre o árduo trabalho nos últimos meses próximo do gramado.
Desde 2015 à beira do campo em sintonia com os torcedores, o intérprete do Vozão viveu grandes emoções nas últimas temporadas. Sua volta aos estádios depois da paralisação ocorreu na vitória contra o Flamengo, no dia 13 de setembro, quando pôde sentir o calor dos gols após meses de espera, apesar de ser o único grito das arquibancadas, com exceção da diretoria do clube.
"A gente sentia a emoção de estar junto com a torcida, cantando, vibrando, comemorando as vitórias. Com a pandemia, perdemos essa conexão. Hoje fico isolado, levo um instrumento, o repique, para representar a organizada, a bandeira e assim está dando certo. Mas a torcida faz toda diferença, é um 12º jogador. Há cânticos que empurram o time pra cima e, quando o resultado é o inverso, a torcida vai de acordo com o jogo", declarou o Vozão.

O contato com os jogadores também diminuiu devido às medidas de segurança sanitárias, mas o incentivo permanece na mesma intensidade.
"Durante as partidas rola aquele 'Vamos! Vamos!', mas, conversa em si não. Até porque eles estão concentrados na partida. Faço algumas graças de longe no aquecimento, eles dão risada. Após o apito final rola aquela resenha, um comentário sobre o jogo", contou o intérprete, cujo nome não pode ser revelado.
Do lado tricolor, o Juba é o mesmo há 11 anos, tendo vivenciado as maiores tristezas e as melhores alegrias nas temporadas recentes em campo. O silêncio nas arquibancadas é lamentado da mesma maneira durante os duelos do Leão.
"A torcida aumenta a adrenalina. Durante a pandemia, me desgasto mais porque o jogo está sendo transmitido para milhões de pessoas e vai que a câmera pega a gente parado. Não temos mais contato com os jogadores na pandemia. Temos um vestiário dos mascotes agora. Estamos com uma ideia de levar caixa de som para nos animar", revelou o intérprete do mascote.

A fantasia já é pesada e ganha ainda mais peso com a responsabilidade de gritar por milhares assistindo a partida em casa. O fator emocional contra os adversários também é perdido, sem a pressão dos quase 50 mil no Castelão.
"Antes, quando tinha um jogo grande, chegava no estádio horas antes e tinha muita gente fora do estádio. Já ficávamos inflamados porque sabíamos que seria um jogo importante, que seria uma festa. Torcedor é imprescindível em qualquer momento. O pulmão do time era a torcida. Além de animar e incentivar o jogador, quando o adversário vinha e sabia como era os jogos do Fortaleza aqui, com mosaico e com a torcida sem parar, é ruim pra quem joga contra (o Fortaleza no Castelão)",completou Juba. Fora do estádio, se engana quem pensa que a rivalidade é a mesma. Ambos são amigos há cinco anos e participam juntos de ações solidárias dos clubes, fortalecendo a relação com e sem a fantasia.
E a relação ganhou uma nova parceira. Em outubro, o Fortaleza lançou a Stella, que se junta ao Juba como figura importante para representar a gigante torcida feminina.
"O sentimento é de responsabilidade por estar ali representando uma nação, sempre animando, e de privilégio porque milhares queriam estar ali. Sem dúvidas, a torcida é primordial nos jogos e pesa bastante nos resultados. Não é à toa que os resultados em casa com a torcida são, na maioria, positivos", avaliou Stella.
Apoio distante
Torcer em casa nunca terá a mesma atmosfera do estádio cheio. O Clássico-Rei será acompanhado a distância, mas o coração da torcida vai ao campo. Para Ingryd Melina, pesquisadora da Rede Nordestina de Estudos em Mídia e Esporte, que foi em quase todos os jogos no Ceará na Arena Castelão em 2019, a mudança ainda não virou costume e a saudade das arquibancadas cheias continua.
"Os jogos do Ceará fazem parte da minha rotina, preenchem meu calendário. Fez muita falta com essa mudança de dinâmica, deixou um vazio. O rádio e a TV antes eram alternativas, porque minha principal opção sempre era ir ao estádio. Agora a TV é a única alternativa que temos. Isso tem um peso significativo. A experiência do sofá não é a mesma da arquibancada. A intensidade vivida é totalmente diferente", disse a alvinegra.
Mestre em Sociologia, Ingryd estuda sobre a dinâmica das torcidas e destaca a relevância de suas atuações nos confrontos.

"Sempre vou acreditar que a torcida faz grande diferença. Na minha dissertação, destaco em que momentos a bateria de uma torcida organizada consegue mobilizar o restante da torcida para causar reações aos jogadores. É um vínculo, uma troca entre o que acontece na arquibancada e no campo. É uma presença insubstituível", explicou.
Hanah Amorelli, estudante de Psicologia, precisou reinventar a maneira de reunir os amigos para torcer pelo Leão. A eliminação contra o Independiente, da Argentina, pela Copa Sul-Americana, em 27 de fevereiro, foi a última aglomeração na qual a jovem esteve presente antes das recomendações de isolamento.
"Esse ano foi todo atípico. Não sabíamos nem se ia voltar o futebol em 2020, que bom que sim. Meus amigos e eu nos reinventamos. Em alguns jogos, nos reunimos por chamada de vídeo, cada um na sua casa, e assistimos aos jogos juntos. Uma experiência diferente, mas legal. Tenho certeza que os jogadores também sentem falta dessa energia", afirmou Hanah.
Clássico decisivo pelo Brasileirão, Ceará e Fortaleza não querem decepcionar os torcedores neste domingo em duelo direto no meio da tabela de classificação. Sem as arquibancadas lotadas, resta aos atletas fazer um jogo do tamanho de suas torcidas.
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